Busca
Faça uma busca por todo
o conteúdo do site:
   
Home
Atualização Cadastral
Áreas de Atuação Profissional
Biblioteca
Bolsa de Empregos
Certidões
Comissões Técnicas
Concursos Públicos (CRQ-IV)
Consulta de Registros
Cursos e Palestras
Dia do Profissional da Química
Downloads
Eventos
Espaços para Eventos
Fale Conosco
Fiscalização
Formulários
Game
Informativos
Juramento
Jurisprudência
Legislação
Licitações
Linha do Tempo
Links
Localização
Noticiário
Perfil
Planos de Saúde
Prêmios
Publicações
QuímicaViva
Regimento Interno
Selo de Qualidade
Sorteios
Transparência Pública
Siga-nos no Twitter   Conheça nosso Facebook   Nosso canal YouTube
 
Tratamento químico de couros e peles - Conselho Regional de Química - IV Região

Tratamento químico de couros e peles 

 


 
Couros e peles
 
O couro é a pele do animal preservada da putrefação por um processo denominado curtimento. A pele curtida se torna flexível e macia, pronta para ser utilizada na confecção de calçados, bolsas, carteiras, roupas e malas, no revestimento de estofados, na produção de chapéus, bolas, tapetes e vários outros produtos. Podem ser curtidas as peles de bovinos, inclusive bezerros, ovelhas, cabras, lhamas, vicunhas, camelos, porcos, cobras, cavalos, búfalos, cangurus, crocodilos, peixes, rãs, aves, como o avestruz, e outros animais.

As civilizações antigas já conheciam técnicas de preparação e curtimento de peles e couros. Existem registros do uso de couros para confecção de sandálias no Antigo Egito, Pérsia, China e durante o império romano. Hoje a indústria do couro emprega alta tecnologia, e começa a adotar práticas de produção que levam em conta a preservação do meio ambiente.

Processamento
 
Para ser utilizada na confecção de calçados, bolsas e outros produtos, a pele tem que passar por um processo de tratamento desde o momento em que é retirada do animal até ficar pronta para o uso. O processamento mantém a natureza fibrosa da pele e, com o uso de produtos químicos, retira o tecido interfibrilar, passível de putrefação.
 
O processamento tem uma série de etapas e operações, e se inicia com a esfola, que consiste na remoção da pele do animal. Ao ser retirada, a pele é submetida a processos de conservação com sal comum (cloreto de sódio) ou por secagem. Também podem ser utilizados sistemas de conservação de curta duração, mais modernos, com o emprego de agentes antissépticos, sem a utilização de sal, que é muito poluente. A finalidade da conservação é impedir a decomposição da pele até o início dos processos que irão transformá-la pelo curtimento em um material resistente.
 
Chama-se "flor" a camada superior do couro. A flor contém o desenho da superfície da pele formado pelas aberturas dos folículos pilosos e poros após a retirada dos pelos (depilação). O desenho é mantido após o curtimento e cada tipo de pele possui sua característica própria. Assim, o couro de boi apresenta uma flor característica e o de ovelha tem outra, por exemplo.
 
Após o processo de conservação tem-se a chamada pele crua. Para se obter o couro acabado, pronto para o uso, as peles cruas são submetidas a uma série de processos divididos em três etapas essenciais, denominadas operação de ribeira, curtimento e acabamento.
 
Ribeira
 
A pele é constituída por três camadas: epiderme, derme e hipoderme. Na operação de ribeira é feita a limpeza e eliminação dos componentes da pele que não poderão estar no produto final. Nesta etapa do processo, a epiderme e a hipoderme devem ser removidas e a derme, parte mais importante e que será transformada em couro, vai ser preparada para o curtimento. As etapas nas operações de ribeira são, pela ordem:
 
- remolho que consiste na lavagem da pele para retirada do sal, reposição do teor de água e limpeza, efetuado em um equipamento denominado fulão.
 
- depilação-caleiro tem o objetivo de retirar o pelo ou a lã da pele, remover a epiderme e separar as fibras e fibrilas do colágeno presente no tecido conjuntivo dos animais. A depilação normalmente é feita em um banho de sulfeto de sódio, aminas ou enzimas para remoção dos pelos e camadas da pele. Os pelos são formados quase que totalmente por queratina, que é dissolvida pelo composto sulfurado. Nas peles em que se deseja preservar a epiderme, pelos ou lã deve-se empregar sistemas de trabalho sem depilação. O caleiro é o momento em que se adiciona cal hidratada para provocar o intumescimento da pele e promover a limpeza entre as fibras, permitindo que os próximos processos tenham mais eficácia.
 
- o descarne vem a seguir. É uma operação mecânica para eliminar restos aderidos ao carnal, tecido subcutâneo e adiposo. O descarne retira resíduos de gorduras para facilitar a penetração dos produtos químicos que serão aplicados nas etapas posteriores do processamento.
 
- divisão - Quando se deseja obter couros mais leves, utilizados na produção de calçados e vestuário, a pele, que é bastante espessa, é dividida em duas lâminas em uma máquina especial. A lâmina superficial, denominada flor, é a mais valiosa, e a lâmina inferior é denominada raspa ou crosta. A espessura das lâminas vai depender do tipo de artigo que se deseja fabricar. A partir da camada inferior podem ser obtidos couros acamurçados e camurças para roupas ou calçados.
 
- a desencalagem é a próxima etapa da operação de ribeira, e visa a eliminação da cal. São usados agentes que reagem com a cal, que poderão ser retirados com uma lavagem posterior. Desta forma é revertido o inchamento da pele já desprovida de pelos.
 
- a purga é o passo seguinte. A purga consiste em uma limpeza mais profunda, feita com enzimas proteolíticas que limpam a pele dos restos de epiderme, pelo e gordura, originando uma flor mais fina e sedosa. Durante a purga são retirados materiais queratinosos degradados, as gorduras são transformadas em ácidos graxos e glicerol e os fibroplastos são decompostos.  
 
O píquel, última etapa da ribeira, tem como função preparar a pele para o curtimento. Em sua composição mais simples, o píquel consiste de um banho em uma solução salino-ácida que tem por objetivo ajustar o pH da pele para receber o tipo de curtente a ser empregado, normalmente sais de crômio.

Curtimento
 
No final da etapa de ribeira a pele já está limpa e livre de tudo o que não interessa no produto final. Mas não apresenta estabilidade, e assim como a pele fresca ou crua, também está sujeita à ação de agentes agressivos, à degradação e à putrefação. Com o curtimento, as peles adquirem estabilidade, e a partir daí recebem o nome de couro.
 
O curtimento envolve a reação de sais de metais ou de extratos tanantes vegetais ou sintéticos com grupos reativos na estrutura proteica. Existem muitos tipos de curtimento, mas o mais utilizado é o curtimento com sais de crômio. Também pode-se fazer o curtimento com taninos naturais para obtenção de couros pesados, como couros industriais e solas. Os produtos inorgânicos mais utilizados como curtentes são os sais de crômio, de zircônio, de alumínio e de ferro, e os produtos orgânicos utilizados são os curtentes vegetais, curtentes sintéticos, aldeídos e parafinas sulfocloradas.
 
Os couros curtidos com crômio são chamados de wet blue. São couros prontos para serem submetidos a tingimentos, recurtimento e acabamento, que irão conferir as características desejadas ao produto final. Atualmente, cerca de 98% dos couros produzidos no Brasil são curtidos com sais de crômio.
 
O wet blue não é o único produto obtido após o processo inicial de curtimento. Existem também o wet white e o wet brown, resultantes de diferentes curtentes. O wet White é obtido quando se pré-curte a pele com um aldeído ou um tanino sintético fenólico. Ele ganhou esta denominação porque o couro adquire uma coloração clara. Quando a pele é curtida com tanino vegetal ela adquire um tom castanho claro, e se chama wet brown.
 
O enxugamento é uma etapa mecânica para eliminar o excesso de água e facilitar a etapa seguinte, o rebaixamento do couro. O rebaixamento é feito em uma máquina que uniformiza a espessura do couro.
 
Acabamento
 
Na etapa de acabamento são executados tratamentos complementares às operações anteriores, que darão o aspecto final ao couro pronto. O acabamento inclui as operações de recurtimento , quando são feitas correções da flor para reparar arranhões e defeitos e definir características como maciez, elasticidade, enchimento, toque e tamanho do poro da flor, tingimento, que confere cor, engraxe, que influi em características como resistência à tração, impermeabilidade, maciez, flexibilidade, toque e elasticidade, secagem, lixamento e acabamento propriamente dito, última etapa do processamento, quando são aplicados produtos sobre a flor para melhorar seu aspecto e aumentar a proteção para o couro.

Brasil
 
O Brasil é o terceiro maior produtor de couro de bovinos do mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos, de acordo com dados de 2010 da Food and Agriculture Organization (FAO). Os números da FAO revelam que o país possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, só perdendo para os Estados Unidos.
 
O Brasil conta com mais de 700 curtumes em operação. São microempresas familiares, médias e grandes empresas. O país conta inclusive com a maior empresa curtidora no mundo inteiro. O Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) informa que em 2011 as exportações brasileiras de couros somaram 2,05 bilhões de dólares, com aumento de 17% em relação a 2010. Naquele ano foram exportadas 26,7 milhões de peças. Os estados que mais exportaram foram Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná, Goiás e Ceará e os maiores compradores dos couros brasileiros foram China, Hong Kong, Itália, Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul.
 
De acordo com o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, o parque industrial brasileiro utiliza tecnologia moderna, dispõe de farta mão de obra especializada e conta com os mais avançados produtos químicos.

Impactos ambientais
 
De acordo com o Guia CETESB Produção Mais Limpa – Curtumes, de 2005, os principais aspectos ambientais envolvidos no setor são o consumo de água, em torno de 25 a 30 metros cúbicos de água por tonelada de pele salgada, e o alto consumo de energia, especialmente nas operações de secagem, no aquecimento da água dos banhos e para acionamento dos equipamentos da estação de tratamento de efluentes e fulões. Outro aspecto com consequências ambientais é o uso e o descarte de produtos químicos nas diferentes etapas do processo produtivo, como solventes, agentes branqueadores e sais de crômio.
 
Historicamente a produção de couros sempre teve significativo impacto no meio ambiente, mas hoje boa parte das indústrias do Brasil investem em programas de redução de emissões, otimização de processos e tratamento de efluentes, graças à adoção de uma legislação mais rigorosa no país, e ao aumento da consciência da necessidade de uma produção mais limpa e sustentável, mudando assim este cenário. Miguel Carlos França, engenheiro químico do Curtume Tropical/Boi Santo, de Franca, explica que hoje os curtumes brasileiros, principalmente os das regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Nordeste, utilizam os produtos químicos como os sais de crômio e o enxofre de maneira muito mais sustentável que no passado. Como exemplo ele citou a empresa onde trabalha, em que os dois principais banhos, de enxofre e sais de crômio, são reciclados, ou seja, trabalham em circuito fechado. Os dois componentes químicos só são descartados para tratamento uma vez por mês, o que reduz significativamente seu impacto sobre o meio ambiente.
 
Segundo França, a empresa também está trabalhando em conjunto com entidades de pesquisa em um projeto para utilização do lodo primário (isento de metais pesados) da estação de tratamento para compostagem. Segundo o engenheiro químico, grandes curtumes com atuação no Brasil também possuem projetos sustentáveis, e já é muito grande dentro do setor a conscientização sobre a importância da sustentabilidade. Hoje é impossível falar em produção de couro no Brasil sem pensar em sustentabilidade, garante o profissional, lembrando que o Brasil não chegaria a ser um dos maiores exportadores de couro se as indústrias mantivessem práticas não sustentáveis em seu processo produtivo.
 
As emissões para a atmosfera são outro problema ambiental gerado por curtumes. O odor proveniente de substâncias voláteis é uma característica desta indústria, mas hoje é possível reduzir consideravelmente os índices com a utilização de processos mais avançados, bem como melhorias no sistema de tratamento de efluentes, diz o engenheiro químico.
 
 
 
 
 
 
 





Referências
 
Hoinacki, Eugênio; Moreira, Marina V.; Kiefer, Carlos G. – Manual Básico do Processamento do Couro. Senai, Porto Alegre, 1994
 
Hoinacki, E - Peles e Couros: origens, defeitos, industrialização. Senai/RS, 2ª ed.,1989
 
Class, Isabel C. e Maia, Roberto A. – Manual Básico de Resíduos Industriais de Curtume. Senai, Porto Alegre, 1994
 
Processamento de Peles em Couro – Universidade Federal do Rio Grande do Sul -
 
 
Exportações couro jan. 2012- Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil http://www.cicb.org.br/index.php/noticias/159-couro-exportacoes-somam-queda-de-um acesso em 28/03/2012
 
 
Fao
 


Texto
Mari Menda – Depto. Com. e Marketing CRQ-IV

Revisão
Prof. Dr. Antonio Carlos Massabni – IQ-Unesp Araraquara
 
Miguel Carlos França, Engenheiro Químico - Curtume Tropical/Boi Santo

Fotos e ilustrações
Stock.xchng
Wikimedia Commons
 
 
 
 
 
Publicado em 09/08/2012
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Copyright CRQ4 - Conselho Regional de Química 4ª Região