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Chumbo pode ser causa de violência juvenil
Autor: Etelvino J.H. Bechara


Desde a antiguidade, o envenenamento por chumbo, denominado saturnismo ou plumbismo, tem afligido milhões de pessoas em nações ricas e pobres, especialmente trabalhadores expostos ocupacionalmente a este metal e crianças resi- dentes em comunidades carentes. Além de ser encontrado no ar, poeira, água, solo e alimentos, o chumbo pode estar presente em materiais aparentemente "inocentes", como utensílios de cerâmica pintada, selos metálicos de garrafas de vinho, extratos fitoterápicos, maquiagem facial, brinquedos antigos, mamadeiras de vidro, alimentos enlatados e suplementos de cálcio. Mas as fontes principais de contaminação por chumbo, estudadas por vários autores, são mais óbvias: tintas de parede, baterias de automóveis, soldas, gasolina aditivada com tetraetilchumbo (banida desde 1982) e emissões industriais.

Sabe-se hoje que o chumbo afeta múltiplos órgãos e tecidos, principalmente cérebro, sangue, fígado, rins, testículos, esperma, sistema imunológico e pulmões. Em crianças, à medida que aumenta o grau de contaminação (acima de 10 µg/dL), agravam-se os sintomas: dificuldades de aprendizagem e atenção, apatia, dores de cabeça e convulsões, diminuição de QI, perda de audição, comportamento agressivo, retardamento mental, dores abdominais e nas juntas, nefropatia, anemia e, eventualmente, morte. Em adultos, são relatados na literatura médica, progressivamente: hipertensão, desordens do sistema nervoso, perda de memória, irritabilidade, dores de cabeça, encefalopatia, esterilidade e impotência, nefropatia, anemia e diminuição da longevidade.

O termo "saturnismo" é uma referência ao deus Saturno, idolatrado na Roma antiga. Os romanos acreditavam que o chumbo, "o metal mais antigo", foi um presente que Saturno lhes deu e com ele construíam aquedutos e produziam acetato de chumbo, utilizado pelos aristocratas da época para adocicar o vinho. Acredita-se que essa mistura bombástica e a conseqüente intoxicação por ela provocada seria a causa da imbecilidade, perversidade e esterilidade reconhecidas de imperadores como Nero, Calígula, Caracala e Domiciano, este último construtor de fontes que jorravam vinho "chumbado" nos jardins de seus palácios. O mundo das artes também inclui vítimas famosas do chumbo, entre eles os pintores Van Gogh e Portinari (fonte: tintas), o vitralista Dirk Vellert (fonte: vidros coloridos) e o compositor Beethoven (fonte provável: tipografia das partituras).

Foram propostas várias hipóteses para explicar os efeitos moleculares de íons de chumbo (Pb2+) na saúde humana, a maioria delas baseadas em duas de suas propriedades químicas: (1) assim como íons de outros metais pesados (Hgn+, Ag1+), o Pb2+ forma sulfetos estáveis (na verdade, mercaptetos) com biomoléculas tiólicas, tais como glutationa e proteínas, inativando-as, e ; (2) Pb2+ substitui íons de Ca2+ e de Zn2+ em várias proteínas e enzimas, também resultando perda de sua atividade biológica. A ligação de chumbo a estas biomoléculas e a fosfolípidos dispara eventos bioquímicos importantes que comprometem a vida celular: alteração da composição e peroxibilidade de membranas biológicas, depleção de antioxidantes como glutationa e melatonina, inibição de enzimas-chave como Na+K+-ATPase, fosfocreatina quinase e nucleases e indução da oxidação de hemoglobina. Ressaltamos aqui a inibição da aminolevulinato desidratase (ALAD) por chumbo, com conseqüente acúmulo e excreção urinária do ácido d-aminolevulínico (ALA) e produção deficiente do grupo heme constituinte de hemoglobina e proteínas respiratórias (citocromos), e, por isso, a classificação do saturnismo como um tipo de porfiria química adquirida.
 

Pesquisadores da área de neuroquímica, desde a década dos anos setenta do século passado, com base na similaridade estrutural entre ALA e o neurotransmissor GABA (ácido g-aminobutírico), atribuíram as manifestações neuropsiquiátricas do saturnismo à competição reversível entre ALA e GABA por sítios de ligação da GABA nas membranas de células nervosas, sem, entretanto, explicar o dano químico resultante nestes sítios sinápticos.

Atentando para o fato de que ALA não é simplesmente um aminoácido como o GABA, mas uma a-aminocetona, enolisável e autoxidável, estudamos a reação de ALA com oxigênio e descobrimos que ela é produtora de vários intermediários e produtos finais tóxicos para a célula, entre eles, radicais livres (hidroxila, superóxido, enoila), água oxigenada e o ácido 4,5-dioxovalérico (uma a-dicetona genotóxica e citotóxica). Em seguida, demonstramos que estes produtos de ALA podem causar danos químicos irreversíveis a várias proteínas, membranas, mitocôndrias, DNA e receptores protéicos de GABA e explicar vários sintomas bioquímicos e clínicos em animais experimentais e trabalhadores expostos ao chumbo. Estes estudos foram realizados com a colaboração do SESI, FUNDACENTRO e das indústrias Saturna, Condulli e Wheaton, culminando com a publicação de nossa hipótese de radicais livres para o saturnismo na revista Xenobiotica, em 1991, amplamente aceita hoje na literatura científica.

Tendo em vista os prejuízos do saturnismo à saúde humana e suas graves conseqüências socioeconômicas, a agência americana EPA (Environmental Protection Agency) e outras organizações governamentais e não-governamentais estabeleceram limites toleráveis de chumbo no ar (< 1,5 µg/m3), em água potável (< 15 µg/L), em tintas (< 0,06%) e no sangue (<10 µg/dL). Quando o nível plasmático de chumbo no sangue de um trabalhador ultrapassar 50 µg/dL, recomendam que ele seja afastado para avaliação médica e tratamento. Sugerem, ainda, que seja promovida a distribuição de panfletos sobre fontes de contaminação por chumbo e seus malefícios à saúde em fábricas e escolas e que seja monitorado periodicamente o nível sanguíneo de chumbo em crianças da escola primária.

Há várias estratégias terapêuticas para o saturnismo, algumas já em uso e outras sob investigação com animais experimentais. Incluem desde o tratamento com quelantes de chumbo (exemplos: CaNa2EDTA, Succimer®, penicilamina, dimercaprol ou BAL) e antioxidantes (exemplos: N-acetilcisteína ou NAC, ácido lipóico, vitaminas B6, C e E, taurina, etoxiquina, captocapril, caroteno, melatonina, zinco, selênio e, mais recentemente, bioflavonóides) ou uma combinação de ambos.

Os efeitos perversos de intoxicação por chumbo se manifestam mais freqüentemente em crianças de famílias de baixo nível econômico e cultural. O metal compromete de forma irreversível o desenvolvimento do sistema nervoso da criança, reduzindo sua atenção, memória e inteligência e tornando-a agressiva. O hábito de levar à boca objetos e fragmentos de paredes pintadas de casas antigas e deterioradas é apontado como a principal fonte de contaminação das crianças. Está relatado na literatura que uma polegada quadrada de uma superfície pintada com tinta de baixa qualidade é suficiente para intoxicar 500 crianças. Mas é possível encontrar níveis elevados de chumbo no sangue até em crianças que não têm aquele hábito. Nesse caso, as fontes de contaminação são as citadas no início deste artigo (poeira, ar, água), não estando descartada a hipótese de terem adquirido o metal de suas mães, durante a gestação.

Segundo Lanphear e colab. (2003), o banimento de chumbo na gasolina, enlatados com solda de chumbo e tintas de parede, promoveu uma redução de 80% na intoxicação de crianças americanas com nível sanguíneo de chumbo acima de 10 µg/dL. Denunciaram ainda outros efeitos sistêmicos do chumbo, como cáries dentárias, delinqüência e problemas de aprendizagem.

Needleman e colab. (2002), ao estudarem a presença de chumbo na tíbia de infratores juvenis da cidade americana de Pitttsburg (194 jovens, entre 12 e 18 anos, brancos e negros), comparados com estudantes do segundo grau, não delinqüentes (146 jovens), já haviam constatado que a freqüência de chumbo elevado na tíbia (>25 ppm) dos jovens era cerca de quatro vezes maior do que os índices encontrados no segundo grupo.

Os mesmos resultados foram relatados por Dietrich e colab. (2001), ao examinarem 195 adolescentes (16-17 anos) de Cincinnati (EUA), acompanhados desde seu nascimento. Aqueles bebês com índices mais elevados de chumbo no sangue apresentaram maior freqüência de atitudes anti-sociais na adolescência, como brigas de rua, vandalismo e pequenos roubos.

Estes dados levantam a dramática hipótese de que muitas de nossas crianças e adolescentes infratores, alguns deles com atitudes cruéis, sejam possíveis vítimas da intoxicação por chumbo, promovida pela pobreza e ignorância. Será que os Champinhas (*) não são, na verdade, adolescentes doentes cuja agressividade foi exacerbada pela intoxicação por chumbo? Esta possibilidade reclama confirmação através de pesquisas sistemáticas e sérias com escolares e menores infratores, as quais pretendemos iniciar brevemente.

(*) Referência ao menor R.A.C, de 16 anos, mentor do seqüestro e assassinato do casal de estudantes Liana Friedenbach, também de 16 anos, e de seu namorado, Felipe Silva Caffé, 19, mortos em Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, caso que ganhou repercussão nacional no final do ano passado.
 
O autor

Professor titular do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, Etelvino J. H. Bechara foi o vencedor da edição 2003 do Prêmio Fritz Feigl, promovido pelo CRQ-IV. Contatos podem ser feitos pelo endereço eletrônico ebechara@iq.usp.br.

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