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Nasceu
em 15 de maio de 1891 em Viena, Áustria, onde foi educado e
se graduou em engenharia química na Escola Técnica Superior,
em 1914. Com o advento da Primeira Grande Guerra serviu o
exército, como oficial e somente com o término do conflito
voltou aos estudos, na Universidade de Viena, obtendo o
título de Doutor em Química em 1920. Na mesma instituição
foi logo admitido como Assistente, promovido a docente em
1927, a Professor Extraordinário de Química Analítica
Inorgânica em 1935 e catedrático em 1937. Também criou um
laboratório e lecionou no curso noturno da Universidade
Popular de Viena, instituída pelo governo para proporcionar
oportunidade de estudos aos ex-combatentes.
Em 1938, já
cientista consagrado, com renome no exterior, Feigl, em
decorrência da anexação da Áustria à Alemanha por Hitler,
foi vítima da perseguição nazista por ser judeu. Demitido da
universidade, refugiou-se na Suíça com a esposa, Dra. Regine
Feigl, e o filho Hans. Após breve estada, aceitou convite
vindo da Bélgica e transferiu-se para a cidade de Ghent para
dirigir um laboratório de pesquisa industrial e lecionou na
universidade local. Bem adaptado e sempre produtivo, foi
porém, novamente atingido pelos acontecimentos políticos
quando, em 1940, os nazistas invadiram a Bélgica, sendo logo
enviado para um campo de concentração perto de Perpignan. A
esposa que, juntamente com o filho, conseguira rumar para
Toulouse, por uma feliz circunstância conheceu o embaixador
do Brasil em Vichi, Luiz de Souza Dantas, que se interessou
pelo caso e providenciou o visto para que os três viessem
para o Brasil. Após atravessar a fronteira espanhola
chegaram a Portugal e, finalmente, embarcaram no navio
brasileiro Serpa Pinto chegando ao Rio de Janeiro em fins de
novembro de 1940.
Graças à
visão e ao espírito empreendedor e progressista do Dr. Mario
da Silva Pinto, Diretor do Laboratório da Produção Mineral,
do Ministério da Agricultura, Feigl pôde ser contratado para
a instituição poucas semanas após a sua chegada.
No LPM, teve
à sua disposição um laboratório muito modesto que somente
após alguns anos pôde ser substituído por instalações bem
melhores mas ainda sem a folga de espaço que seria desejável
para um cientista de seu porte e de sua capacidade
produtiva. Ali, trabalhou intensamente, desde o início, não
apenas com colaboradores brasileiros, mas também com
estrangeiros, os quais o procuravam espontaneamente, vindos
de vários países, principalmente dos Estados Unidos, Japão,
Israel e Argentina.
Feigl foi o
criador de Análise de Toque – Tüpfelreaktionen, em alemão;
Spot Tests, em inglês – procedimento analítico para fins
qualitativos, executado com técnica muito simples com o
emprego de uma ou poucas gotas de amostra e reagentes, em
geral sobre papel de filtro, em que se desenvolve uma
coloração característica para a identificação da espécie a
ser detectada. O resultado, para que possa indicar a
sensibilidade da prova, ou seja, o valor mínimo detectável
na menor concentração é expresso mediante o limite de
identificação, em microgramas, acoplado ao limite de
diluição. O teste é tanto mais sensível quanto menor o
limite de identificação e maior o de diluição.
Os trabalhos
dos primeiros anos cuidaram, principalmente, da aplicação de
reações inorgânicas e deram origem ao livro que, em inglês,
passou a chamar-se Spot Tests in Inorganic Analysis. Logo,
porém, Feigl ampliou os estudos no campo da química orgânica
e veio à luz o Spot Tests in Inorganic Analysis. Ambos os
volumes foram ampliados em várias edições e foram traduzidos
em numerosas línguas, inclusive em japonês e hindu. Os dois
livros reúnem os resultados de paciente e exaustivo
trabalho, conduzido com seus colaboradores, de controle e
seleção de milhares de testes e incluem a evolução da
técnica que com o uso de diferentes utensílios e a
introdução de novas idéias foi ampliando o campo de ação,
não se limitando à análise de soluções mas também de
amostras sólidas e gasosas. É realmente notável como Feigl
conseguia valer-se dos mais variados fenômenos para criar
novos testes. Assim, por exemplo, aproveitou a capilaridade
do papel de filtro para realizar separações explorando as
diferenças de velocidade de migração de diferentes espécies,
utilizou efeitos catalíticos provocados por teores
baixíssimos de substâncias, valeu-se da pirólise na análise
de sólidos e, sobretudo, usou com maestria o efeito de
complexação para alcançar seletividade e especificidade.
Mas, se a simplicidade e elegância da técnica encantavam,
muito mais importante – e é preciso ressaltar – é o domínio
deveras admirável que possuía das reações químicas. É
fascinante observar como, aliando a imaginação ao
raciocínio, conseguia mudar o curso de uma reação e obter
efeitos surpreendentes.
Enfatizava a
importância do condicionamento do meio, para mostrar que
mais do que da reação em si a sensibilidade e seletividade
do teste dependem das condições em que ela é conduzida.
Toda essa
riqueza de conhecimentos e a genialidade em deles saber
fazer uso transparece nitidamente no livro que foi a sua
maior obra, Chemistry of Specific, Seletive and Sensitive
Reactions, escrito no Brasil e publicado em 1949. O texto é
denso e contém capítulos que constituem contribuição de
largo espectro no campo da química, como, por exemplo, os
que cuidam do emprego de compostos de coordenação e o
relativo à “formação genérica e reações topoquímicas”.
O Prof.
Krumholz, um dos seus mais antigos colaboradores – como já
foi mencionado – em homenagem póstuma ao mestre, na Academia
Brasileira de Ciências, assim se expressou a respeito desse
livro: “Esta obra de Feigl é considerada um dos maiores
textos não só da Química Analítica, mas da Química em
geral”.
Na verdade,
conforme afirmaram eminentes cientistas após a sua morte,
Feigl foi não apenas um dos maiores químicos analíticos de
todos os tempos, mas também um químico excepcional.
Feigl recebeu
vários convites de universidade e instituições científicas
do exterior, mas sempre os recusou alegando que não deixaria
o Brasil, país que adotou como pátria (naturalizou-se em
1945) e pelo qual declara ter uma grande dívida de gratidão
por ter sido aqui acolhido, juntamente com a família, em
momento extremamente difícil de sua vida.
A produção
científica de Feigl no Brasil foi muito grande, pois das 436
publicações que deixou, 276 resultaram de seus trabalhos em
nosso país, ou seja, volume até maior do registrado na fase
européia. Teve vários colaboradores, dos quais 35 são
considerados seus discípulos e alguns se destacaram em suas
atividades, todavia não teve a oportunidade de se ligar como
docente a uma universidade de maneira direta e permanente.
Pena, porque ao redor dele poderia ter sido criada uma
grande escola brasileira de química analítica.
Feigl recebeu
inúmeras honrarias, prêmios, medalhas, homenagens de várias
academias e universidades de um grande número de países,
além de Israel e Áustria onde foi alvo de manifestações
muito especiais, não faltando o devido reconhecimento por
entidades brasileiras. Dentre os títulos de Doutor Honoris
Causa recebidos, figura também o conferido pela USP, por
iniciativa do Prof. Hauptmann.
Feigl era uma
pessoa afável, de fácil diálogo e geralmente de bom humor,
apaixonado pelo Rio de Janeiro, principalmente pela praia de
Copacabana. Em 1954 sofreu um grande trauma com o
falecimento do filho único, de 28 anos, também químico e que
se encontrava na Suíça, em estágio de pós-doutorado com o
famoso químico orgânico Paul Karrer. Apesar da enorme dor,
soube reagir dedicando-se ainda mais intensamente ao
trabalho. Faleceu no Rio de Janeiro em 27 de janeiro de
1971.
Trecho do livro "Origem do
Instituto de Química da USP: reminiscências e comentários",
de autoria do Bacharel em Química e professor emérito da
universidade Paschoal Senise. A publicação está disponível
para consulta na Biblioteca do CRQ-IV. |