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Edição
Janeiro/Fevereiro de 2004 |
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versão
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Artigo
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Chumbo, intoxicação e violência
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por Etelvino J.H. Bechara
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Desde a
antiguidade, o envenenamento por chumbo, denominado
saturnismo ou plumbismo, tem afligido milhões de pessoas em
nações ricas e pobres, especialmente trabalhadores
expostos ocupacionalmente a este metal e crianças resi-
dentes em comunidades carentes. Além de ser encontrado no
ar, poeira, água, solo e alimentos, o chumbo pode estar
presente em materiais aparentemente "inocentes",
como utensílios de cerâmica pintada, selos metálicos de
garrafas de vinho, extratos fitoterápicos, maquiagem
facial, brinquedos antigos, mamadeiras de vidro, alimentos
enlatados e suplementos de cálcio. Mas as fontes principais
de contaminação por chumbo, estudadas por vários autores,
são mais óbvias: tintas de parede, baterias de
automóveis, soldas, gasolina aditivada com tetraetilchumbo
(banida desde 1982) e emissões industriais.
Sabe-se hoje
que o chumbo afeta múltiplos órgãos e tecidos,
principalmente cérebro, sangue, fígado, rins, testículos,
esperma, sistema imunológico e pulmões. Em crianças, à
medida que aumenta o grau de contaminação (acima de 10
µg/dL), agravam-se os sintomas: dificuldades de
aprendizagem e atenção, apatia, dores de cabeça e
convulsões, diminuição de QI, perda de audição,
comportamento agressivo, retardamento mental, dores
abdominais e nas juntas, nefropatia, anemia e,
eventualmente, morte. Em adultos, são relatados na
literatura médica, progressivamente: hipertensão,
desordens do sistema nervoso, perda de memória,
irritabilidade, dores de cabeça, encefalopatia,
esterilidade e impotência, nefropatia, anemia e
diminuição da longevidade.
O termo
"saturnismo" é uma referência ao deus Saturno,
idolatrado na Roma antiga. Os romanos acreditavam que o
chumbo, "o metal mais antigo", foi um presente que
Saturno lhes deu e com ele construíam aquedutos e produziam
acetato de chumbo, utilizado pelos aristocratas da época
para adocicar o vinho. Acredita-se que essa mistura
bombástica e a conseqüente intoxicação por ela provocada
seria a causa da imbecilidade, perversidade e esterilidade
reconhecidas de imperadores como Nero, Calígula, Caracala e
Domiciano, este último construtor de fontes que jorravam
vinho "chumbado" nos jardins de seus palácios. O
mundo das artes também inclui vítimas famosas do chumbo,
entre eles os pintores Van Gogh e Portinari (fonte: tintas),
o vitralista Dirk Vellert (fonte: vidros coloridos) e o
compositor Beethoven (fonte provável: tipografia das
partituras).
Foram
propostas várias hipóteses para explicar os efeitos
moleculares de íons de chumbo (Pb2+) na saúde
humana, a maioria delas baseadas em duas de suas
propriedades químicas: (1) assim como íons de outros
metais pesados (Hgn+, Ag1+), o Pb2+
forma sulfetos estáveis (na verdade, mercaptetos) com
biomoléculas tiólicas, tais como glutationa e proteínas,
inativando-as, e ; (2) Pb2+ substitui íons de Ca2+
e de Zn2+ em várias proteínas e enzimas,
também resultando perda de sua atividade biológica. A
ligação de chumbo a estas biomoléculas e a fosfolípidos
dispara eventos bioquímicos importantes que comprometem a
vida celular: alteração da composição e peroxibilidade
de membranas biológicas, depleção de antioxidantes como
glutationa e melatonina, inibição de enzimas-chave como Na+K+-ATPase,
fosfocreatina quinase e nucleases e indução da oxidação
de hemoglobina. Ressaltamos aqui a inibição da
aminolevulinato desidratase (ALAD) por chumbo, com conseqüente
acúmulo e excreção urinária do ácido d-aminolevulínico
(ALA) e produção deficiente do grupo heme constituinte de
hemoglobina e proteínas respiratórias (citocromos), e, por
isso, a classificação do saturnismo como um tipo de
porfiria química adquirida.

Pesquisadores
da área de neuroquímica, desde a década dos anos setenta
do século passado, com base na similaridade estrutural
entre ALA e o neurotransmissor GABA (ácido g-aminobutírico),
atribuíram as manifestações neuropsiquiátricas do
saturnismo à competição reversível entre ALA e GABA por
sítios de ligação da GABA nas membranas de células
nervosas, sem, entretanto, explicar o dano químico
resultante nestes sítios sinápticos.
Atentando
para o fato de que ALA não é simplesmente um aminoácido
como o GABA, mas uma a-aminocetona,
enolisável e autoxidável, estudamos a reação de ALA com
oxigênio e descobrimos que ela é produtora de vários
intermediários e produtos finais tóxicos para a célula,
entre eles, radicais livres (hidroxila, superóxido, enoila),
água oxigenada e o ácido 4,5-dioxovalérico (uma a-dicetona
genotóxica e citotóxica). Em seguida, demonstramos que
estes produtos de ALA podem causar danos químicos
irreversíveis a várias proteínas, membranas,
mitocôndrias, DNA e receptores protéicos de GABA e
explicar vários sintomas bioquímicos e clínicos em
animais experimentais e trabalhadores expostos ao chumbo.
Estes estudos foram realizados com a colaboração do SESI,
FUNDACENTRO e das indústrias Saturna, Condulli e Wheaton,
culminando com a publicação de nossa hipótese de radicais
livres para o saturnismo na revista Xenobiotica, em
1991, amplamente aceita hoje na literatura científica.
Tendo em
vista os prejuízos do saturnismo à saúde humana e suas
graves conseqüências socioeconômicas, a agência
americana EPA (Environmental Protection Agency) e outras
organizações governamentais e não-governamentais
estabeleceram limites toleráveis de chumbo no ar (< 1,5
µg/m3), em água potável (< 15 µg/L), em tintas (<
0,06%) e no sangue (<10 µg/dL). Quando o nível
plasmático de chumbo no sangue de um trabalhador
ultrapassar 50 µg/dL, recomendam que ele seja afastado para
avaliação médica e tratamento. Sugerem, ainda, que seja
promovida a distribuição de panfletos sobre fontes de
contaminação por chumbo e seus malefícios à saúde em
fábricas e escolas e que seja monitorado periodicamente o
nível sanguíneo de chumbo em crianças da escola
primária.
Há
várias estratégias terapêuticas para o saturnismo,
algumas já em uso e outras sob investigação com animais
experimentais. Incluem desde o tratamento com quelantes de
chumbo (exemplos: CaNa2EDTA, Succimer®,
penicilamina, dimercaprol ou BAL) e antioxidantes (exemplos:
N-acetilcisteína ou NAC, ácido lipóico, vitaminas
B6, C e E, taurina, etoxiquina, captocapril,
caroteno, melatonina, zinco, selênio e, mais recentemente,
bioflavonóides) ou uma combinação de ambos.
Os efeitos
perversos de intoxicação por chumbo se manifestam mais
freqüentemente em crianças de famílias de baixo nível
econômico e cultural. O metal compromete de forma
irreversível o desenvolvimento do sistema nervoso da
criança, reduzindo sua atenção, memória e inteligência
e tornando-a agressiva. O hábito de levar à boca objetos e
fragmentos de paredes pintadas de casas antigas e
deterioradas é apontado como a principal fonte de
contaminação das crianças. Está relatado na literatura
que uma polegada quadrada de uma superfície pintada com
tinta de baixa qualidade é suficiente para intoxicar 500
crianças. Mas é possível encontrar níveis elevados de
chumbo no sangue até em crianças que não têm aquele
hábito. Nesse caso, as fontes de contaminação são as
citadas no início deste artigo (poeira, ar, água), não
estando descartada a hipótese de terem adquirido o metal de
suas mães, durante a gestação.
Segundo
Lanphear e colab. (2003), o banimento de chumbo na gasolina,
enlatados com solda de chumbo e tintas de parede, promoveu
uma redução de 80% na intoxicação de crianças
americanas com nível sanguíneo de chumbo acima de 10 µg/dL.
Denunciaram ainda outros efeitos sistêmicos do chumbo, como
cáries dentárias, delinqüência e problemas de
aprendizagem.
Needleman e
colab. (2002), ao estudarem a presença de chumbo na tíbia
de infratores juvenis da cidade americana de Pitttsburg (194
jovens, entre 12 e 18 anos, brancos e negros), comparados
com estudantes do segundo grau, não delinqüentes (146
jovens), já haviam constatado que a freqüência de chumbo
elevado na tíbia (>25 ppm) dos jovens era cerca de
quatro vezes maior do que os índices encontrados no segundo
grupo.
Os mesmos
resultados foram relatados por Dietrich e colab. (2001), ao
examinarem 195 adolescentes (16-17 anos) de Cincinnati
(EUA), acompanhados desde seu nascimento. Aqueles bebês com
índices mais elevados de chumbo no sangue apresentaram
maior freqüência de atitudes anti-sociais na
adolescência, como brigas de rua, vandalismo e pequenos
roubos.
Estes dados
levantam a dramática hipótese de que muitas de nossas
crianças e adolescentes infratores, alguns deles com
atitudes cruéis, sejam possíveis vítimas da intoxicação
por chumbo, promovida pela pobreza e ignorância. Será que
os Champinhas (*) não são, na verdade, adolescentes
doentes cuja agressividade foi exacerbada pela intoxicação
por chumbo? Esta possibilidade reclama confirmação
através de pesquisas sistemáticas e sérias com escolares
e menores infratores, as quais pretendemos iniciar
brevemente.
(*)
Referência ao menor R.A.C, de 16 anos, mentor do seqüestro
e assassinato do casal de estudantes Liana Friedenbach,
também de 16 anos, e de seu namorado, Felipe Silva Caffé,
19, mortos em Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, caso que
ganhou repercussão nacional no final do ano passado.
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