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Breve histórico de Fritz Feigl - Conselho Regional de Química - IV Região

Breve histórico de Fritz Feigl 

 


Fritz Feigl foi o nome de um prêmio concedido pelo CRQ-IV entre 1977 e 2008, numa homenagem ao Químico nascido em 15 de maio de 1891 em Viena, Áustria, onde foi educado e se graduou em Engenharia Química na Escola Técnica Superior, em 1914. Com o advento da Primeira Grande Guerra,  Feigl serviu ao exército, como oficial e somente com o término do conflito voltou aos estudos, na Universidade de Viena, obtendo o título de Doutor em Química, em 1920. Na mesma instituição foi logo admitido como assistente, promovido a docente em 1927, a professor extraordinário de Química Analítica Inorgânica, em 1935, e catedrático em 1937. Também criou um laboratório e lecionou no curso noturno da Universidade Popular de Viena, instituída pelo governo para proporcionar oportunidade de estudos aos ex-combatentes.

Em 1938, já cientista consagrado, com renome no exterior, Feigl, em decorrência da anexação da Áustria à Alemanha por Hitler, foi vítima da perseguição nazista por ser judeu. Demitido da universidade, refugiou-se na Suíça com a esposa, Dra. Regine Feigl, e o filho Hans. Após breve estada, aceitou convite vindo da Bélgica e transferiu-se para a cidade de Ghent para dirigir um laboratório de pesquisa industrial e lecionou na universidade local. Bem adaptado e sempre produtivo, foi, porém, novamente atingido pelos acontecimentos políticos quando, em 1940, os nazistas invadiram a Bélgica, sendo logo enviado para um campo de concentração perto de Perpignan. A esposa que, juntamente com o filho, conseguira rumar para Toulouse, por uma feliz circunstância conheceu o embaixador do Brasil em Vichi, Luiz de Souza Dantas, que se interessou pelo caso e providenciou o visto para que os três viessem para o Brasil. Após atravessar a fronteira espanhola chegaram a Portugal e, finalmente, embarcaram no navio brasileiro Serpa Pinto, chegando ao Rio de Janeiro em fins de novembro de 1940.

Graças à visão e ao espírito empreendedor e progressista do Dr. Mario da Silva Pinto, Diretor do Laboratório da Produção Mineral (LPM), do Ministério da Agricultura, Feigl pôde ser contratado para a instituição poucas semanas após a sua chegada.

No LPM, teve à sua disposição um laboratório muito modesto que somente após alguns anos pôde ser substituído por instalações bem melhores mas ainda sem a folga de espaço que seria desejável para um cientista de seu porte e de sua capacidade produtiva. Ali, trabalhou intensamente, desde o início, não apenas com colaboradores brasileiros, mas também com estrangeiros, os quais o procuravam espontaneamente, vindos de vários países, principalmente dos Estados Unidos, Japão, Israel e Argentina.

Feigl foi o criador de Análise de Toque – Tüpfelreaktionen, em alemão; Spot Tests, em inglês – procedimento analítico para fins qualitativos, executado com técnica muito simples com o emprego de uma ou poucas gotas de amostra e reagentes, em geral sobre papel de filtro, em que se desenvolve uma coloração característica para a identificação da espécie a ser detectada. O resultado, para que possa indicar a sensibilidade da prova, ou seja, o valor mínimo detectável na menor concentração é expresso mediante o limite de identificação, em microgramas, acoplado ao limite de diluição. O teste é tanto mais sensível quanto menor o limite de identificação e maior o de diluição.

Os trabalhos dos primeiros anos cuidaram, principalmente, da aplicação de reações inorgânicas e deram origem ao livro que, em inglês, passou a chamar-se Spot Tests in Inorganic Analysis. Logo, porém, Feigl ampliou os estudos no campo da química orgânica e veio à luz o Spot Tests in Inorganic Analysis. Ambos os volumes foram ampliados em várias edições e foram traduzidos em numerosas línguas, inclusive em japonês e hindu. Os dois livros reúnem os resultados de paciente e exaustivo trabalho, conduzido com seus colaboradores, de controle e seleção de milhares de testes e incluem a evolução da técnica que com o uso de diferentes utensílios e a introdução de novas idéias foi ampliando o campo de ação, não se limitando à análise de soluções mas também de amostras sólidas e gasosas. É realmente notável como Feigl conseguia valer-se dos mais variados fenômenos para criar novos testes. Assim, por exemplo, aproveitou a capilaridade do papel de filtro para realizar separações explorando as diferenças de velocidade de migração de diferentes espécies, utilizou efeitos catalíticos provocados por teores baixíssimos de substâncias, valeu-se da pirólise na análise de sólidos e, sobretudo, usou com maestria o efeito de complexação para alcançar seletividade e especificidade. Mas, se a simplicidade e elegância da técnica encantavam, muito mais importante – e é preciso ressaltar – é o domínio deveras admirável que possuía das reações químicas. É fascinante observar como, aliando a imaginação ao raciocínio, conseguia mudar o curso de uma reação e obter efeitos surpreendentes.

 

Enfatizava a importância do condicionamento do meio, para mostrar que mais do que da reação em si a sensibilidade e seletividade do teste dependem das condições em que ela é conduzida.

Toda essa riqueza de conhecimentos e a genialidade em deles saber fazer uso transparece nitidamente no livro que foi a sua maior obra, Chemistry of Specific, Seletive and Sensitive Reactions, escrito no Brasil e publicado em 1949. O texto é denso e contém capítulos que constituem contribuição de largo espectro no campo da química, como, por exemplo, os que cuidam do emprego de compostos de coordenação e o relativo à “formação genérica e reações topoquímicas”.

O Prof. Krumholz, um dos seus mais antigos colaboradores – como já foi mencionado – em homenagem póstuma ao mestre, na Academia Brasileira de Ciências, assim se expressou a respeito desse livro: “Esta obra de Feigl é considerada um dos maiores textos não só da Química Analítica, mas da Química em geral”.

Na verdade, conforme afirmaram eminentes cientistas após a sua morte, Feigl foi não apenas um dos maiores químicos analíticos de todos os tempos, mas também um químico excepcional.

Feigl recebeu vários convites de universidade e instituições científicas do exterior, mas sempre os recusou alegando que não deixaria o Brasil, país que adotou como pátria (naturalizou-se em 1945) e pelo qual declara ter uma grande dívida de gratidão por ter sido aqui acolhido, juntamente com a família, em momento extremamente difícil de sua vida.

A produção científica de Feigl no Brasil foi muito grande, pois das 436 publicações que deixou, 276 resultaram de seus trabalhos em nosso país, ou seja, volume até maior do registrado na fase européia. Teve vários colaboradores, dos quais 35 são considerados seus discípulos e alguns se destacaram em suas atividades, todavia não teve a oportunidade de se ligar como docente a uma universidade de maneira direta e permanente. Pena, porque ao redor dele poderia ter sido criada uma grande escola brasileira de química analítica.

Feigl recebeu inúmeras honrarias, prêmios, medalhas, homenagens de várias academias e universidades de um grande número de países, além de Israel e Áustria onde foi alvo de manifestações muito especiais, não faltando o devido reconhecimento por entidades brasileiras. Dentre os títulos de Doutor Honoris Causa recebidos, figura também o conferido pela USP, por iniciativa do Prof. Hauptmann.

Feigl era uma pessoa afável, de fácil diálogo e geralmente de bom humor, apaixonado pelo Rio de Janeiro, principalmente pela praia de Copacabana. Em 1954 sofreu um grande trauma com o falecimento do filho único, de 28 anos, também químico e que se encontrava na Suíça, em estágio de pós-doutorado com o famoso químico orgânico Paul Karrer. Apesar da enorme dor, soube reagir dedicando-se ainda mais intensamente ao trabalho. Faleceu no Rio de Janeiro em 27 de janeiro de 1971.

Trecho do livro "Origem do Instituto de Química da USP: reminiscências e comentários", de autoria de de Paschoal Senise, Bacharel em Química e professor emérito da Universidade de São Paulo. A publicação está disponível para consulta na Biblioteca do CRQ-IV.
 

 
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