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Mai/Jun 2014 

 


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Superação - Recém-formada, Engenheira surda busca oportunidade de trabalho
Autor(a): Jonas Gonçalves


Fotos: CRQ-IV

Ariane estudou na UniAnchieta, em Jundiaí e se formou em 2013

Aos 25 anos de idade, Ariane Cantuaria da Silva poderia ser considerada mais uma profissional recém-formada que enfrenta diversos desafios na busca por uma vaga no mercado de trabalho. Poderia, não fosse a sua trajetória até se tornar uma Engenheira Química. Formada em 2013 pelo Centro Universitário Padre Anchieta (UniAnchieta), de Jundiaí, ela possui um grau severo de surdez congênita, o que não a impediu de concluir a graduação e de, agora, visar uma colocação na indústria química e a obtenção de um doutorado na área.

A exemplo de outros profissionais entrevistados na edição nº 120 do Informativo CRQ-IV, publicada em abril de 2013, Ariane conta que já enfrentou (e ainda enfrenta) preconceito e desconfiança a respeito de sua capacidade pessoal e profissional. Tanto que rejeita classificações como “deficiente auditiva” ou “portadora de deficiência”, já que esses termos podem, segundo ela, denotar que não estaria apta a exercer atividades profissionais. Por isso, prefere declarar que é “surda” ou uma “pessoa com surdez severa”.

Tanto no Ensino Fundamental quanto no Médio, Ariane não contou com o auxílio de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras), o que ocorreu durante sua graduação. Como a contratação desses intérpretes depende da iniciativa de cada instituição, foi recomendado aos pais que levassem a filha para escolas voltadas ao atendimento de pessoas com necessidades especiais. A orientação foi rejeitada, por isso Ariane frequentou aulas ao lado de estudantes sem qualquer tipo de limitação. “Ela sempre sentou na primeira fileira para que pudesse acompanhar as aulas por meio de leitura labial. Os professores precisavam falar mais devagar para que ela pudesse fazer um acompanhamento adequado”, explica Acilvio Oliveira da Silva, pai da Engenheira.

Sua limitação física é compensada pela capacidade intelectual e esta começou a chamar a atenção desde cedo. Com apenas três anos, surpreendeu ao montar um brinquedo lúdico de 300 peças, recomendado para crianças maiores de cinco anos. “Com o passar do tempo, percebi que a tendência dela seria gostar de Ciências Exatas”, relata o pai.

Vocação – Quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, Ariane teve a chance de conhecer alguns produtos químicos já que, na época, seu pai era administrador de uma pequena distribuidora do segmento. Um deles, voltado para evitar queda de cabelos, lhe chamou a atenção. Por isso, passou a se interessar por processos de produção.

Ao prestar vestibular, cogitou fazer um curso de Farmácia ou de Engenharia de Alimentos, mas acabou optando pela Engenharia Química. Escolheu a UniAnchieta, pois a instituição tem por política disponibilizar profissionais especializados para assessorar alunos portadores de necessidades especiais.

Assim, durante os cinco anos da graduação, Ariane contou com a ajuda de uma intérprete de Libras. Segundo o professor Flávio Gramolelli Jr., coordenador do curso da UniAnchieta, Ariane foi o primeiro caso de estudante na Engenharia Química da instituição que precisou desse apoio adicional.

Ele conta que houve um esforço de todos – familiares, alunos, professores e funcionários – para que Ariane pudesse acompanhar as aulas. “Sempre deixamos claro que ela não teria privilégios com relação a provas e trabalhos. E isso foi importante, pois apesar do problema auditivo, não houve prejuízos quanto ao aprendizado. Pelo contrário, ela até foi além das nossas expectativas iniciais”, avalia o professor.

Gramolelli Jr. explica que eram esperados alguns problemas, dado o nível de complexidade do conteúdo de um curso de Engenharia Química. Porém, Ariane demonstrou ter uma notável capacidade de concentração. Mesmo não conseguindo falar e ouvir como os outros alunos, compreendia o que era ensinado e demonstrava constantemente o seu interesse.

Edna conta que Ariane sempre se empenhou

A Técnica em Química Edna Della Guardia supervisiona os trabalhos realizados pelos alunos nos laboratórios da instituição. Segundo ela, Ariane sempre se empenhou nas atividades e recebia apoio dos colegas. “Quando havia trabalhos em grupo, um dos integrantes sempre se encarregava de fazer uma intermediação entre as informações passadas pelo professor e a Ariane”, conta.

Em 2009, durante o segundo semestre do curso, Ariane conheceu a estrutura da indústria química Elekeiroz, em Várzea Paulista, onde trabalha o Engenheiro Químico Vicente de Paulo Silva Junior, 34 anos, coordenador de produção e que é portador de grau leve de surdez. Ao falar da visita de Ariane à fábrica, o Engenheiro recorda que ela demonstrou interesse nos processos de produção e fez diversas perguntas.

“Posso entender as dificuldades enfrentadas pela Ariane, pois temos de provar à sociedade diariamente que somos pessoas normais. Porém, para as empresas, o que realmente interessa são as competências técnicas e comportamentais. Na rotina diária, as pessoas nem se lembram das deficiências. Na empresa em que trabalho, outras pessoas com algum tipo de limitação atuam em diferentes áreas e têm ótimo desempenho”, assinala Vicente. Para ele, cada vez mais pessoas com deficiência estão obtendo qualificação. “Se tiverem consciência dessa nova realidade, as empresas poderão crescer e se beneficiar”, defende.

O professor Gramolelli considerou importante a troca de experiências realizada, pois serviu como um estímulo à aluna. Segundo Ariane, a partir dali, a certeza de que iria até o fim da graduação se estabeleceu. “O coração bateu mais forte”, enfatiza.

Desafios – Se, no âmbito acadêmico, Ariane teve a receptividade necessária para estudar, o mesmo não se pode dizer do período em que tentou obter um estágio, obrigatório durante o terceiro ano do curso. Ao contatar cinco indústrias químicas e uma agência de empregos para manifestar interesse por vagas, enviou seu currículo mencionando a surdez. Somente duas empresas a chamaram para entrevista, mas nenhuma a contratou.

O estágio obrigatório só pôde ser feito porque a Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região, sediada em Campinas, se interessou pelo caso de Ariane e, em maio de 2012, chamou representantes daquelas empresas para uma conversa.

Uma delas admitiu falhas de comunicação durante o processo seletivo devido à ausência de um tradutor de Libras e por isso se dispôs a oferecer uma nova oportunidade, com o auxílio de um profissional especializado. Aprovada na nova seleção, Ariane estagiou nas áreas de produção, administração e vendas, podendo vivenciar na prática alguns dos ensinamentos obtidos na faculdade.

Durante o estágio, a empresa disponibilizou um intérprete de Libras para facilitar a comunicação entre Ariane e seus superiores. Contudo, ela não foi contratada porque a empresa, na época, estava sendo reestruturada.

Doutorado – A próxima meta de Ariane é obter um doutorado e para tanto se matriculou em um curso do Departamento de Desenvolvimento de Processos e Produtos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a ser iniciado em agosto deste ano.

Ela também continua firme no objetivo de atuar como Engenheira em uma indústria, por isso cadastrou seu currículo na Bolsa de Empregos do Conselho.



A inclusão de pessoas com deficiência (física, auditiva, visual, intelectual ou múltipla) no mercado está prevista na Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Chamada de “Lei de Cotas”, ela prevê que toda empresa com 100 ou mais funcionários deve destinar de 2% a 5% dos postos de trabalho a pessoas com algum tipo de deficiência. O percentual varia de acordo com o número total de funcionários (de 100 a 200, 2%; de 201 a 500, 3%; de 501 a 1.000, 4%; e a partir de 1.001, 5% das vagas disponíveis). Atualmente, a empresa que desrespeitar a Lei de Cotas estará sujeita à multa de R$ 1.717,38 a R$ 171.736,10.

Entretanto, o progresso obtido desde então ainda está longe de atender à demanda existente. Segundo Renata Casimiro, diretora de Recursos Humanos da i.Social, consultoria especializada na inclusão social e econômica de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, das 45,6 milhões de pessoas que declaram ter algo tipo de deficiência no Brasil, 70% (cerca de 31 milhões) estão na idade economicamente ativa, que vai dos 15 aos 64 anos. Dessas, 13 milhões teriam condições de estar inseridas na força de trabalho formal mediante o que prevê a Lei nº 8.213/91. Mas, os números mostram que o contingente de pessoas empregadas ainda é restrito.

A fiscalização do cumprimento da Lei de Cotas é uma atribuição do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Conforme dados fornecidos pela pasta, a inserção de pessoas com deficiência no mercado nacional tem crescido após ações fiscais (autuações, sem necessariamente ter havido aplicação de multa). Em 2013, foram 40.897 empregados, ante 35.420 em 2012 e 34.395 em 2011. Além disso, a mais recente Relação Anual de Informações Sociais (Rais), publicada em 2012 pelo próprio MTE, aponta que 330,3 mil vínculos empregatícios envolvem pessoas com deficiência (0,7% do total do País), dos quais 214,7 mil homens (65%) e 115,6 mil (35%) mulheres.

Como forma de conscientizar os empresários a respeito da legislação, o MTE promove palestras, seminários e reuniões que contam com a participação de outros órgãos, como o Ministério Público do Trabalho. Em uma etapa posterior, são enviadas notificações via correio às empresas com mais de 100 funcionários a fim de obter comprovantes do cumprimento das cotas, o que é chamado de “fiscalização indireta”. Já a fiscalização direta consiste na ida até as empresas por parte de auditores do Ministério. Caso sejam aplicadas autuações e as empresas não se adequem, o MTE encaminha relatórios ao MPT, que pode tomar medidas legais no âmbito do Poder Judiciário, como ações civis públicas.

A procuradora do Trabalho Lisyane Chaves Motta, coordenadora nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do MPT, avalia que apesar do tempo decorrido desde que a Lei de Cotas entrou em vigor, muitas empresas em diversas áreas ainda não cumprem o que está previsto. “O mercado de trabalho reflete uma sociedade com muitos preconceitos, que precisam ser quebrados. Muitas seleções ainda são feitas com base em critérios subjetivos, como a aparência”, afirma Lisyane.

Conforme o caso, o MPT pode instaurar inquéritos e ajuizar ações civis públicas para garantir o cumprimento da legislação. Acordos com empresas podem ser estabelecidos por meio de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs). Para a procuradora, ainda que tenham sido obtidos avanços nos últimos anos, como as cotas para pessoas com deficiência em concursos públicos, existem outros obstáculos a serem vencidos. “Ainda que precisem de tecnologia assistiva, muitas pessoas com deficiência têm capacidade, podendo passar por estágios probatórios para demonstrarem aptidão”, salienta.





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